Joana Woehl, membro da SEC-CORPRERI — Sociedade de Estudos Contemporâneos, Comissão Regional Permanente de Prevenção contra Enchentes do Rio Iguaçu — explica o fenômeno, os riscos históricos e o que a população pode fazer para se preparar.
UM Vale: Qual a diferença entre El Niño e La Niña?
Joana Woehl: La Niña é o período de seca — menos chuva. El Niño é chuva acima da média, especialmente na região Sul do Brasil. Resumindo: mais chuvas no Sul do Brasil.
UM Vale: Como esses fenômenos se relacionam com as enchentes e secas que vemos na região?
Joana Woehl: São coisas que se repetem. La Niña tem seu ciclo, El Niño também tem seu ciclo. Cada um tem seu impacto num determinado período. O que a gente faz é acompanhar de perto e ir atualizando as previsões conforme o fenômeno avança.
UM Vale: O que é exatamente o El Niño, cientificamente?
Joana Woehl: El Niño nada mais é que um aquecimento natural das águas do Oceano Pacífico perto da linha do Equador. Quando isso acontece, ele muda o clima no mundo inteiro. No Sul do Brasil, temos uma distribuição de chuva maior. Seca no Nordeste e parte do norte. Esse é o comportamento clássico do El Niño.
UM Vale: Existe a possibilidade de um Super El Niño? O que estaria por vir?
Joana Woehl: Esse período de maio, junho e julho é onde o fenômeno está se formando — vai até o final do ano. É muito difícil dizer que tipo de El Niño teremos pela frente. Pode ser fraco, moderado, ou o chamado Super El Niño. Na verdade, é muito difícil afirmar qual será porque nós estamos num momento conhecido como a Barreira da Primavera no Hemisfério Norte — isso cria uma confusão na atmosfera, tornando o clima instável e impedindo que se precise o que vai acontecer. Por isso é muito difícil dizer que tipo de fenômeno vem pela frente.
UM Vale: Se o Super El Niño se confirmar, quais são os riscos para o Rio Iguaçu?
Joana Woehl: Se esse fenômeno se confirmar, nossa bacia de 24.200 km² estaria cheia de água, porque teríamos chuva acima da média. A determinados momentos, quando caem milímetros excessivos com a bacia já cheia, já temos condições para uma enchente. Esse Super El Niño tem um comportamento parecido com o de 1992 e 1983, quando tivemos a grande cheia de 10 metros e 42 centímetros. A cheia de 8,89 metros, de 1992, tem um período de retorno estimado de 40 anos — e estamos muito próximos disso. A de 2023 veio com 600 milímetros na bacia. Mas isso vai depender do que vier pela frente. A gente trata de previsão, não de precisão.
UM Vale: A população aceita bem esses alertas?
Joana Woehl: Ora sim, ora não. Porque a gente mexe com a vida das pessoas. Você está na sua casa tomando chimarrão, quentinho, e alguém diz que você tem que sair. Você não sabe pra onde ir — tem que repensar toda a sua vida. A relação das enchentes não é só perder objetos. É toda a sua forma de vida que se modifica. Desmonta tudo.
Na enchente de 2014, choveu no sábado. Quando percebemos que era muita chuva, começamos toda a articulação. Quando foi 3 horas da manhã, dissemos: a hora de ir à rádio avisar a população que vamos ter uma cheia de verdade. Às 6 horas da manhã do domingo, estávamos ao vivo falando: vai acontecer, estamos calculando, vai chegar a 7 metros. E ainda estava chovendo.
Fui ao bairro São Bernardo avisar pessoalmente. Uma senhora na esquina disse: “Como o senhor fala isso? Não tem água nem no CTG. Como vai entrar água aqui amanhã?” Meia-noite, ela não conseguiu tirar os carros.
Cada vez mais, para você não perder, você tem que ficar de olho e ter um plano: se vier uma enchente, pra onde eu vou? As Freiras do São Bernardo, depois de 2023, mandaram fazer tijolo por baixo do sofá, das camas. Na enchente seguinte, tiram os colchões, lavam tudo e montam de novo. As enchentes sempre voltarão. E as secas também.
UM Vale: Existem projetos concretos para reduzir o impacto das cheias?
Joana Woehl: O Rio Iguaçu é um dos rios mais estudados do Brasil quando o assunto são enchentes. O que temos hoje mais rápido e economicamente viável para União da Vitória é fazer um canal na Fazenda Brasil e alargar as margens do rio abaixo da ponte 153. Com isso, podemos ter uma redução de até 1 metro e 30 centímetros nas cheias. Para isso, o projeto precisa avançar — espero que o estudo do Governo do Estado venha com os projetos necessários para a busca de recursos e a realização da obra.
Monitoramento da Copel: https://www.copel.com/mhbweb/paginas/bacia-iguacu.jsf
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